Foto: Cedoc/CUT

Protagonismo dos Movimentos Sociais: a única forma de transformar o Brasil

Da Conclate de 1981 ao Plebiscito de 2025, a história comprova que só a organização popular pode enfrentar crises e abrir caminhos de transformação social no Brasil.

O protagonismo dos movimentos sociais representa a única forma verdadeiramente eficaz de transformar o Brasil. Esta afirmação, longe de ser uma declaração retórica, encontra respaldo concreto na história recente do país, quando analisamos dois momentos históricos fundamentais: a Conclate (Conferência Nacional da Classe Trabalhadora) de 1981 e o Plebiscito Popular Nacional de julho de 2025.

Estes dois movimentos, separados por 44 anos, demonstram uma verdade incontestável: mesmo em realidades diversas e complexas, mesmo em condições adversas para os movimentos sociais, a organização popular consegue oferecer alternativas concretas para a sociedade. O que une esses dois momentos históricos são elementos estruturais que revelam como os movimentos sociais constroem seu protagonismo e se tornam agentes de transformação social.

A Conclate de 1981: resistência e reorganização em tempos de ditadura

Para compreender a importância da Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclate), é fundamental situar o contexto histórico de 1981. O Brasil vivia sob o jugo da ditadura militar, enfrentando uma crise econômica gigantesca, com inflação que corroía os salários, desemprego estrutural e ausência total de espaços para reivindicações. A democracia simplesmente não existia, e os militares conduziam a sociedade através de perseguição política e repressão a qualquer forma de manifestação.

Neste cenário de “democracia zero”, algo novo começou a emergir. O movimento sindical entrava em ascensão, impulsionado pelas greves do ABC Paulista de 1978, que revelaram ao país a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva. Estas mobilizações demonstraram que os trabalhadores podiam, mesmo sob ditadura, se organizar e dar uma resposta coletiva aos problemas da época.

A Conclate surge neste contexto como um marco histórico. Pela primeira vez desde o golpe de 1964, o sindicalismo como um todo conseguiu superar suas divergências específicas e se unificar em torno de pautas concretas. Não se tratava apenas de uma reunião sindical ou de reivindicações pontuais, mas de algo muito mais amplo e transformador.

O movimento sindical buscava não apenas a reorganização dos direitos da classe trabalhadora, questões salariais e trabalhistas, mas também reivindicava a democracia. Ao extrapolar sua esfera específica, o movimento sindical passou a ter uma representação social mais ampla. A sociedade se viu inserida nas bandeiras do movimento sindical, que conseguiu transcender suas pautas corporativas para se tornar um movimento de transformação nacional.

A Conclate demonstrou que os movimentos sociais organizados são capazes de protagonizar mudanças históricas, mesmo nos momentos mais difíceis. Ali se aprovou a Comissão Nacional Pró-CUT e se plantou a semente do que viria a ser a maior central sindical do Brasil e uma das maiores do mundo. Mesmo num período sem espaço democrático, o movimento sindical, através de sua organização interna e capacidade de ampliar suas pautas, conseguiu dar um sinal para a sociedade e contribuir decisivamente para os avanços democráticos posteriores, incluindo a Constituinte e o processo de redemocratização.

O Plebiscito Popular Nacional de 2025: reorganização em tempos de crise democrática

Para entender o Plebiscito Popular Nacional, é necessário compreender o contexto que se desenvolveu a partir de 2013. As manifestações de junho daquele ano foram capturadas pela extrema direita, com grupos como MBL e Vem Pra Rua, iniciando um processo que resultou em um desgaste gigantesco da esquerda. A Operação Lava Jato representou um ataque direto aos partidos políticos, especialmente ao governo de esquerda então no poder.

Este período, que se estendeu até a eleição de Bolsonaro em 2018, caracterizou-se pelo desgaste dos movimentos sociais, sua desorganização e sucessivas derrotas. Os governos de esquerda enfrentaram crises profundas, culminando no impeachment de Dilma Rousseff e na prisão de Lula. O campo da esquerda estava literalmente “no paredão”.

É neste contexto adverso que surge o Plebiscito Popular Nacional. Desta vez, não apenas o movimento sindical, mas o conjunto dos movimentos sociais – movimento de mulheres, movimento negro, movimento LGBTQIA+, entre outros – decidem “pisar firme” e propor um debate que vai além do que estava sendo discutido no cenário político tradicional.

As pautas do Plebiscito Popular Nacional incluem questões fundamentais como a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1, a taxação dos super-ricos e a isenção do imposto de renda para trabalhadores que ganham até cinco mil reais. Estas propostas representaram uma parada no ataque e na ascensão da direita, com os movimentos sociais afirmando: “precisamos nos organizar e também pautar o debate na sociedade”.

Assim como na Conclate, os movimentos superaram suas questões específicas para tratar de agendas muito maiores. O fim da escala 6×1, por exemplo, envolve não apenas questões trabalhistas, mas o direito dos trabalhadores a uma vida para além do trabalho, incluindo direito ao estudo, ao descanso e ao convívio familiar. Trata-se de uma pauta que unifica movimentos e dialoga diretamente com a sociedade.

O Plebiscito Popular Nacional demonstrou que mesmo em um período adverso, quando ainda estávamos na defensiva, é possível voltar a se mobilizar a partir de pautas concretas. Os movimentos sociais deram uma verdadeira aula, mostrando que a reorganização é possível e real, apresentando uma agenda que dialoga com todos os segmentos sociais.

Os elementos em comum: construindo o protagonismo através da história

Quarenta e quatro anos separam a Conclate do Plebiscito Popular Nacional, mas existem similaridades objetivas na postura e na forma como os movimentos sociais construíram seu protagonismo em cada época. Este protagonismo é o grande elo que deve nos orientar para o próximo período, visando construir vitórias de outro nível e qualidade.

Em 1981, o país enfrentava crise econômica, inflação, desemprego e um regime ditatorial sem possibilidade democrática. Em 2025, vivemos uma nova crise social, com exclusão gigantesca, concentração de renda extrema, ataques sistemáticos a direitos e desregulamentação dos direitos trabalhistas. Há também uma negação do que representa ser trabalhador, com tentativas de transformar a identidade do trabalhador na figura do “empreendedor” – um processo de alienação que merece análise específica.

Em ambos os momentos de crise, foram os movimentos sociais que souberam dar uma resposta adequada ao momento específico e construir alternativas importantes para o Brasil. Tanto a Conclate quanto o Plebiscito Popular Nacional apostaram na organização de base, partindo de questões específicas regionais e territoriais, buscando uma construção coletiva mais geral.

A Conclate criou comissões e grupos de trabalho; o Plebiscito Popular organizou-se através de comitês populares e coordenações estaduais e nacional. Embora em formatos diferentes, existe um fio condutor comum: a organização popular. A partir da organização no local de trabalho e moradia, por interesses específicos, inicia-se uma ação mais geral.

O grande ensinamento destes dois movimentos é que, em momentos de crise, são os movimentos sociais, é o povo organizado a partir de sua realidade objetiva, que constrói alternativas de saídas dignas para o povo brasileiro. São os trabalhadores organizados em sindicatos, movimentos sociais e entidades que constroem alternativas para o país.

A Conclate plantou a semente do que viria a ser a CUT, contribuindo decisivamente para a consolidação da transição democrática. A questão que se coloca agora é: qual deve ser o legado do Plebiscito Popular Nacional? Que horizonte ele pode nos oferecer?

A Assembleia Popular Nacional: uma proposta para o futuro

Assim como a Conclate deu orientação e rumo ao movimento sindical, resultando na criação da CUT e contribuindo para a consolidação da democracia, o Plebiscito Popular Nacional pode nos oferecer um horizonte transformador. A proposta que apresento para debate é a construção de uma Assembleia Popular Nacional, um grande instrumento de organização e transformação social para o próximo período.

A Assembleia Popular Nacional seria uma intensa mobilização envolvendo o movimento sindical, trabalhadores sem terra, trabalhadores sem teto, sindicatos, associações de moradores, movimento estudantil, movimento de mulheres, movimento negro – todos os segmentos organizados da sociedade. Esta mobilização partiria de baixo para cima, nos bairros, sindicatos, associações e espaços específicos de atuação, iniciando um grande debate de conscientização e mobilização.

O objetivo seria construir e entender quais são as grandes agendas e demandas dos trabalhadores, das donas de casa, das mulheres que vivem na periferia, organizando-se de forma que culmine numa grande conferência, numa Assembleia Popular Nacional. A partir das demandas específicas dos movimentos sociais, cada segmento faria o debate em seu espaço e tiraria suas demandas.

Quando chegasse à Assembleia Nacional, uma síntese seria feita e apresentado um grande programa de ação, um programa de unidade dos movimentos sociais. Geralmente, planos de governo são elaborados basicamente pelos partidos políticos. Precisamos mudar essa lógica, acumular forças políticas para chegar a 2026 num patamar político muito mais elevado, com condições de debate e mobilização muito maiores do que temos hoje.

Mas isso não se limita às eleições. Devemos criar uma cultura democrática em que a sociedade, como um todo, comece a discutir a partir de seu segmento específico suas demandas e necessidades, construindo ponto a ponto no bairro, no município, nas regiões, depois no estado e finalmente neste grande espaço que seria a Assembleia Popular Nacional.

Não vamos chegar às eleições “voando a ponto de bala” sem organização. É necessário um processo contínuo de mobilização. Esta é a grande questão que o Plebiscito Popular Nacional pode ter como legado: a semente plantada do início e retomada da mobilização social, da organização política da esquerda e dos movimentos sociais, e de um diálogo renovado com o povo a partir de demandas específicas.

Conclusão: o protagonismo como caminho de transformação

A história nos ensina que foi através do protagonismo dos movimentos sociais que demos os grandes saltos na defesa de direitos, na construção de uma sociedade mais avançada e democrática, e na organização política de entidades como a CUT. Agora podemos ampliar isso novamente.

Em 1981, num período de ditadura, o movimento sindical se organizou e acenou para a sociedade uma outra forma, uma outra possibilidade de organização. Mostrou que podíamos, mesmo num espaço antidemocrático, construir transformações reais. O resultado foi a CUT e a consolidação da democracia.

Hoje estamos num momento de refluxo dos movimentos sociais (as manifestações de 7 de setembro de 2025 mostram isso), mas o Plebiscito Popular Nacional nos possibilitou mostrar que conseguimos nos organizar novamente, mobilizar e dialogar com o povo. Não podemos simplesmente “voltar para casa” após esta conquista. Precisamos ter um plano de ação, retomar e repensar a discussão para construir um grande debate com a sociedade, com o povo brasileiro, de baixo para cima.

O protagonismo político dos movimentos sociais já demonstrou que tem condições de fazer isso, que pode e consegue realizar as grandes transformações que o Brasil precisa. É compreendendo este processo que podemos dar novos saltos qualitativos.

A Assembleia Popular Nacional representa a possibilidade de ampliar este protagonismo. Este é o grande legado que o Plebiscito Popular Nacional nos oferece, e é isso que trago para o debate. Não se trata apenas de uma questão eleitoral, mas da semente de um outro nível de democracia para o Brasil.

A única forma de transformar o Brasil é através do protagonismo dos movimentos sociais. A história já comprovou isso. Agora cabe a nós construir o futuro a partir desta certeza, organizando-nos para que os trabalhadores e trabalhadoras, em toda sua diversidade, sejam os verdadeiros protagonistas da transformação social que o país necessita.

No canal do Youtube “A questão Política” aprofundo mais esse e outros temas que dizem respeito à política. Convido a todas e todos para acompanharem o canal.

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