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Primeira Mostra de Cultura de Terreiro exalta ancestralidade e resistência em São Paulo

Realizado no último sábado (14), o evento ÌPÁDÉ ÀSÁ reuniu lideranças, arte e política na Matilha Cultural para celebrar o legado das religiões de matriz africana.

No último sábado, dia 14 de março, a Matilha Cultural, no centro de São Paulo, foi preenchida pelo toque dos tambores e pelo perfume das ervas sagradas durante a Primeira Mostra de Cultura de Terreiro – ÌPÁDÉ ÀSÁ. O evento nasceu como um espaço vital de afirmação e resistência, buscando não apenas apresentar a riqueza estética das tradições de terreiro, mas também debater os desafios políticos e sociais enfrentados por essas comunidades no Brasil contemporâneo.

A abertura oficial contou com a presença de Adriana Vasconcellos, coordenadora de Igualdade Racial, e Jairo Jr. (JJ), que destacam a intersecção entre cultura e direito. JJ trouxe uma perspectiva histórica sobre as artes negras, afirmando: ‘Com o surgimento da capoeira como arte marcial de resistência, entendemos que tanto ela quanto o candomblé sofrem muito com o racismo e, por isso, se tornam grandes frentes de resistência cultural e religiosa’. Em sintonia, Adriana Vasconcellos reforçou o papel do Estado na proteção desses saberes, ao pontuar: ‘É fundamental apresentarmos os resultados que a secretaria traz à sociedade, garantindo que as políticas públicas alcancem e protejam a nossa ancestralidade’.”

A segunda mesa do dia mergulhou na espiritualidade com três convidados de grande peso. Mãe Paula de Yansá emocionou o público ao narrar a trajetória do candomblé, destacando que “a nossa história é a base da identidade brasileira e o candomblé é o pilar que sustenta essa memória viva”. Pai Jorge de Esu, ao tratar das “Riquezas e Desafios das Religiões Afro-brasileiras”, ressaltou a necessidade de união: “os nossos desafios são grandes, mas a nossa riqueza espiritual é o que nos mantém de pé contra qualquer intolerância”. Já Mãe Doné Rosa Ty Oya explicou a ciência ancestral das folhas, enfatizando que esse conhecimento “só existe por conta dos escravizados do candomblé, que mantiveram viva a cura através das ervas”.

Para além dos debates, a Mostra transformou o espaço em um território de vivência cultural plena. O coletivo Gingaê Camará chega pra mostrar o Maculelê e o Samba de Roda, ganhou o centro do salão com rodas que demonstraram a agilidade e a força dessa expressão que une dança e combate. Em um momento de profunda sensibilidade, o microfone foi aberto para intervenções poéticas, onde jovens e veteranos puderam declamar versos que ecoavam as dores e as alegrias da negritude, transformando a palavra em um instrumento de axé e denúncia.

O empreendedorismo negro também teve destaque com a feira de artesanatos, que ofereceu desde guias e fios de conta até vestimentas tradicionais e acessórios inspirados nos orixás. Cada peça comercializada carregava consigo o conceito de economia solidária e a preservação de estéticas que muitas vezes são marginalizadas pelo mercado convencional. Os visitantes puderam levar para casa não apenas objetos, mas fragmentos da história e do cuidado manual produzido dentro e fora dos terreiros.

O encerramento não poderia ter sido mais vibrante com a apresentação do Bloco Afro É Di Santo. Comandando o ritmo com o samba-reggae e toques ancestrais, o bloco colocou todos para dançar, reafirmando que a festa também é uma forma de luta política. Entre cores e sorrisos, a Mostra de Cultura de Terreiro se despediu deixando a mensagem de que a cultura afro-brasileira é, acima de tudo, uma força coletiva e imparável de transformação social.

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