Heliópolis, maior favela do estado de São Paulo, onde a UNAS atua há mais de 50 anos - Divulgação/UNAS

Organização comunitária é caminho para garantir direitos nas favelas, dizem lideranças de Heliópolis, em São Paulo

Entrevistados defendem disputar orçamento público e enfrentar estigmas que justificam violência do Estado

A força da favela está na organização. É o que afirmam moradores de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, ao destacar que a conquista de políticas públicas, como educação, cultura, esporte e assistência social depende da mobilização cotidiana de quem vive esses territórios.

“Nós que precisamos das políticas públicas temos que, todos os dias, olhar para o orçamento [público], para esses prefeitos e governadores que estão aí. Votamos neles para que estejam voltados às nossas necessidades, mas muitas vezes não é isso que acontece. Então precisamos estar nos organizando e resistindo para garantir essas políticas para quem mais precisa”, destaca Cleide Alves, presidenta da União de Núcleos e Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas) e moradora de Heliópolis há 57 anos, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

O Dia da Favela é celebrado nesta terça-feira (4). Ele foi criado em 2006, a partir de uma iniciativa da Central Única das Favelas (Cufa) e aprovado pela Lei Municipal nº 4.383, no Rio de Janeiro. Com o passar dos anos, a data passou a ser adotada por 19 estados e mais de 560 municípios, como uma forma de reconhecer a potência e a diversidade dos territórios populares, onde vivem mais de 18 milhões de brasileiros.

Mas, como aponta Alves, a data também é uma lembrança de que a favela segue sendo alvo de políticas de violência. “Ainda tem esse olhar de achar que você precisa chegar nos locais matando todo mundo. Hoje já tem tecnologia, já se sabe quem é quem. Vejo muitas vezes que nós também somos usados para continuar estigmatizando essa questão do preconceito”, diz, ao comentar a megaoperação que matou mais de 120 pessoas na última semana, nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro.

Um dos pilares da Unas é o conceito de “bairro educador”, que coloca a educação, a cultura, o esporte e os direitos humanos como base para garantir dignidade e futuro aos moradores das favelas. “Nós acreditamos numa educação emancipadora, olhando para os direitos humanos. Quando falamos da favela, não é que somos à parte da cidade, nós somos a cidade” afirma Alves.

Para Douglas Cavalcante, comunicador da Unas, também entrevistado no programa, falar da favela a partir da própria favela é parte desse processo de afirmação. “O Dia da Favela é um dia importante para celebrar esse território tão plural. É falar de maneira positiva e não só quando há tristeza ou violência. Os moradores constroem essa cidade e contribuem para seu desenvolvimento todos os dias”, ressalta.

Ele concorda que participar de decisões e do debate orçamentário é indispensável para a conquista de direitos. “A mobilização dos moradores é um dos destaques das formas das comunidades se organizarem e conseguirem efetivar direitos. O processo para fazer a mudança precisa acontecer dos moradores participando dos espaços de decisão, de poder, inclusive influenciando a pauta do orçamento”, defende.

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