Gestão Nunes conclui demolição do Samba do Cruz e ‘enterra’ espaço de memória e cultura negra em SP

Segundo a gestão municipal, a área do Samba do Cruz dará lugar ao futuro Parque Municipal Campo de Marte, projeto que prevê investimento de R$ 202 milhões e a criação de áreas de lazer, esporte e convivência

A gestão Ricardo Nunes demoliu o espaço onde acontecia o tradicional Samba do Cruz, na zona norte de São Paulo (SP), após uma decisão judicial que autorizou a reintegração de posse para a construção do Parque Municipal Campo de Marte. A ação decorre de uma disputa entre o Grêmio Esportivo Recreativo (GRE) Cruz da Esperança e a Prefeitura de São Paulo. O local foi fundado em 1958 e era uma referência da cultura negra e um espaço de memória.

Jessy Dayane, candidata a deputada estadual, acompanhou a demolição desde as primeiras horas do dia. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ela lamenta o processo.

“É um momento muito duro, muito triste. Hoje estava prevista a reintegração de posse, mas não necessariamente a demolição. É um espaço histórico da comunidade, um espaço de futebol de várzea e samba. Estávamos em processo de reconhecimento do local como patrimônio histórico e cultural. Aqui também tem capoeira e assentamento de orixás. É um desrespeito com a cultura negra e o patrimônio de São Paulo. É um espaço de pertencimento, de acolhimento, de alegria, de celebração de sua cultura”, afirma.

Dayane explica que uma nova audiência estava prevista para a tarde desta quarta-feira (29) e, por isso, havia a tentativa de evitar a demolição do local. Infelizmente, não houve sucesso na negociação. “Uma vez demolido, não tem como voltar atrás”, reforça.

Em nota enviada ao Brasil de Fato, a prefeitura de São Paulo informou que a reintegração de posse foi realizada “de forma pacífica”, com a desocupação da área e a remoção das estruturas consideradas irregulares. A administração afirma que manteve diálogo com as entidades que utilizavam o espaço e que “somente o clube Cruz da Esperança da Casa Verde abandonou unilateralmente as tratativas e descumpriu todas as notificações para a desocupação voluntária da área”.

A versão da prefeitura, no entanto, é contestada pela comunidade. “Não houve mesa de diálogo em que pudéssemos discutir. A mãe de santo estava aqui pedindo para que ela pudesse fazer o ritual de retirada dos assentamentos do terreiro, que faz parte do ritual e da fé dessas pessoas, e não houve nenhum tipo de diálogo”, relata Jessy Dayane.

Jessy Dayane também conta que agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que estavam realizando o acompanhamento do processo estavam “com os olhos cheios de lágrima”. “Alguns disseram que avós deles frequentavam o espaço. A não resposta da prefeitura é uma violência e um descaso com um patrimônio de São Paulo”, resume.

Segundo a gestão municipal, a área do Samba do Cruz dará lugar ao futuro Parque Municipal Campo de Marte, projeto que prevê investimento de R$ 202 milhões e a criação de áreas de lazer, esporte e convivência.

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